terça-feira, 21 de maio de 2013

V Seminário de Educação Inclusiva



Realizou-se o V Seminário de Educação Inclusiva, nos dias 26 e 27 de outubro de 2012, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.
Exponho descrição do seminário com sínteses dos painéis apresentados, pontos mais pertinentes abordados pelos diferentes oradores e temáticas que suscitaram mais interesse, nomeadamente as comunicações a que me foi possível assistir.
Findo com apreciação do contributo para a valorização profissional e melhoria das práticas educativas, aspeto que contudo, vai sendo descrito ao longo desta reflexão, pela ênfase dada por cada orador, no que considero como mais pertinente nesse mesmo aspecto.

Na sessão de abertura, António Teodoro, Isabel Sanches (Universidade Lusófona), Adalberto Fernandes (INR) e Isabel Lopes (PIN-ANDEE), foram unânimes no enfoque do que foi feito em educação especial e o percurso a fazer.

José Morgado na comunicação “A educação Inclusiva...Hoje” expôs a perspetiva de reflexão global sobre o estado da educação inclusiva, destinada a todos, os que de algum modo se tornam vulneráveis com duas caraterísticas específicas, por um lado ao nível da diversidade dos indivíduos e por outro a qualidade de resposta ética.
Mencionou com alguma ironia “sendo o poeta um fingidor, a legislação, ela própria é também por vezes poética”, numa alusão metafórica à questão da elegibilidade dos alunos e das respostas. Frisou que as diferentes práticas educativas definem-se num quadro de relação entre experiências, dificuldades e competências do aluno a par do que a escola oferece e/ou solicita.
Considera que programas e práticas ineficazes geram equívocos produzindo fracassos e frustração em alunos, famílias e profissionais. Referiu causas frequentes destas opções ao nível da execução, obstáculos e limites.

Partindo da premissa que as diferenças enriquecem e de que investigar é questionar lançou o repto do olhar avaliativo, não na medida mensurável dos conhecimentos da aprendizagem mas na participação efetiva do aluno na escola ao nível de respostas adequadas a cada um, a cooperação entre os agentes envolvidos, a diferenciação dos serviços prestados e dos procedimentos da ação educativa, a necessidade eficaz do envolvimento e participação das famílias.

Considerando os valores éticos na qual a Inclusão é um princípio, destacou que esta deve ser feita com os pares, apesar de em alguns casos ser difícil de aplicar, existe a necessidade premente de colaboração mútua com o envolvimento dos agentes educativos e a comunidade.


No painel “Gestão Curricular e inclusão” Maria do Céu Roldão realçou a dificuldade na procura de palavras que não esvaziem os conceitos a elas associados, receou utilizar a palavra Inclusão, um conceito básico, usado em diferentes vertentes, infelizmente pouco implementado na prática.
Traçou o cenário histórico da escola na aplicação daquele conceito, não deixando de referir que a matriz organizativa se mantém igual, ainda com o sentido vincado de hierarquização, dificultando a aplicabilidade da inclusão como desejável.

Conceito que, todos sabem ou pensam saber, mas que, na realidade muito poucos são os que a praticam.


Clarinda Barata referiu o sonho do professor em busca da turma ideal ficando aprisionado entre a flexibilização do currículo ou entrincheirado neste.

Apresentou os resultados de investigação em torno do conhecimento das perceções dos professores relativamente à inclusão. Como sentem o impacto das politicas educativas e de que forma (re)contextualizam o currículo prescrito de forma oficial.


De modo global, o enfoque foi dado no papel crucial da criatividade dos profissionais, gerando mudanças de mentalidades e de práticas educativas.

Filomena Serralha, apresentou a investigação realizada em sala de aula com características e objetivos de aprendizagem cooperativa, nomeadamente Movimento de Escola Moderna. Conceção dessa prática partindo dos registos dos alunos envolvidos.

O modo de funcionamento assenta no trabalho de equipa com espaços comuns de aprendizagem, apelando à participação de todos. Sendo cada aluno diferente, independentemente de necessidades mais específicas, paralelamente ao currículo nacional, deve existir um outro subjetivo que contempla o trajeto individual do aluno.



No segundo dia, no painel “Interação família, escola e educação inclusiva” Isaura Pedro abordou os resultados de investigação sobre a motivação do envolvimento dos pais na escola e como é efetivado.

Como reflexão final, questiona-se:


a) Como são definidas em cada escola as políticas de envolvimento das famílias na aprendizagem e a sua integração efetiva?

b) Que suporte existe ao desenvolvimento de práticas facilitadoras e significativas do papel da família?


Em representação da CONFAP, José Gonçalves, apresentou a intervenção participativa junto das escolas, não deixando de mencionar a sua própria experiência diferente enquanto pai.


Cristina Franco, mãe de uma criança com autismo, relatou a experiência pouco positiva na frequência da creche e o papel fundamental da Intervenção Precoce na transição para o Jardim de Infância da rede pública.

Está ciente que a Inclusão é um caminho definitivamente para se percorrer e que jamais poderá ser irreversível. Abordou o papel do docente de educação especial na sensibilização e lutas constantes que valem sempre a pena.

Esta intervenção reforça a ideia que práticas visivelmente positivas, têm efeitos a longo prazo no sucesso escolar, a importância do envolvimento familiar na aprendizagem (como participam em conjunto todos os intervenientes no processo educativo, trabalham de modo a resolverem problemas, planificando e dialogando) têm efeito no desenvolvimento dos alunos e das famílias.

A família, sendo quem conhece melhor os alunos é um parceiro dos docentes de educação especial na informação de ritmos, preferências e expetativas. Questões, por exemplo, como aplicação dos Currículos Específicos Individuais, tempos para apoios e terapias não têm viabilidade sem a participação da família.

Nas comunicações optei por:

O país dos botões: a educação inclusiva sob o olhar das crianças. Perspetiva das crianças sobre inclusão. De modo muito simples constituiu uma pertinente visão natural de que afinal as crianças encaram a diversidade como um facto sem preconceitos.

O plano individual de transição no 3o ciclo: que repercussões? Conhecimento da experiência e caraterização da supervisão do processo, nível de participação das famílias e agentes educativos variável num caminho ainda com percurso a fazer.


A dislexia em contexto educacional: apresentação de resultados de investigação.


O painel “As terapias expressivas como facilitador dos processos de inclusão” iniciou com Teresa Leite abordando “A musicoterapia no sistema educativo”, importância da sua utilização, das vivências a ela associadas na relação terapêutica, áreas de aplicação, métodos e técnicas, diferenças entre educação musical adaptada e música na educação especial.

Terminou referindo o bom princípio que é a Inclusão, salientando a falta de meios para que este conceito se torne mais operacional na escola.
Luísa Roubaud abordou o corpo num desenvolvimento humano que se faz de perdas, de declínio e de morte, evocando como tratamos os idosos com atitudes preconceituosas e práticas discriminatórias e políticas que perpetuam estereótipos acerca das pessoas mais velhas.

Isabel Cristina Calheiros e Liliane Viegas referiram como funciona e tem sido o percurso do Grupo de Teatro do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. Liliane de modo prático mostrou à plateia o corpo como potencial do individuo se relacionar com o meio e os outros, mesmo quando por alguma doença corta ligações com o que o rodeia.
Na realidade o que nos faz aumentar as emoções positivas como alegria, contentamento, amor, descobrindo mais sentido para o que somos e fazemos, são as mudanças e ações aparentemente simples, básicas, leves, sem complicações que o corpo transmite. 

Filomena Pereira na conferência “Contexto Educativo Atual: Perspetivas e Desafios” abordou as políticas recentes na organização da educação especial na escola, esta, tendo mais recursos do que utiliza, cabe-lhe as decisões na procura de recursos que sejam significativos para a mudança.

António Teodoro terminou o seminário aludindo à falácia da sociedade atual, caracterizada por desigualdades sociais confundir exigência com performance, criando segregação nos jovens, e a escola, não sendo totalmente responsável, participa legitimando as desigualdades.
Referiu as políticas escritas, em muitos casos sem suporte na investigação e frequentemente pouco explícitas.

Sendo as politicas opções, estas devem ser objeto de debate público, não devendo pertencer ao território de peritos mas avaliados no poder de opinião de todos os públicos.



Excelentes momentos, José Morgado crítico e reflexivo, Maria do Céu Roldão sintética e elucidativa, Cristina Franco mãe observadora, encerrando com António Teodoro desafiador e o otimismo salutar de Adalberto Fernandes equiparando este seminário a um manancial de vitaminas reflexivas.
Participar neste seminário reforça a ideia premente do docente de educação especial se configurar como agente ativo de mudança, logo, tem de estar aberto à diversidade de seres e saberes desenvolvendo práticas pedagógicas que promovam a todos uma participação efetiva na sociedade.

Refletir sobre as práticas, estas de teor intencionalmente pedagógico, deve ser uma constante, permitindo, deste modo não só ajuizar as práticas atuais como fecundar práticas futuras.

Fazendo algo genuinamente bom, as escolas devem promover o que de melhor podem em prole dos alunos e da comunidade. Novos desafios constituem a premissa de que urge mudar com um olhar avaliativo num mundo repleto de oportunidades com diferentes diversidades.

Acesso a medidas de apoio não pode depender da classificação de incapacidades. Prevalecer critérios médicos sobre critérios educacionais deve ser uma medida, definitivamente repensada, sendo que contraria toda a perspetiva de EI e do conceito NEE.
O indivíduo é único, com direitos na promoção da qualidade da escola e no usufruto de serviços se de facto necessita.

Deve-se, assim enfatizar o poder da aprendizagem em contexto natural e práticas centradas na família, cabendo aos profissionais apoiar e fortalecer as capacidades daquelas nas competências e experiências dos filhos, não esquecendo a importância dos afetos nas relações, concebendo a educação inclusiva como direito e não como necessidade social.

O valor intrínseco da resposta educativa exige uma educação de qualidade como modo de colmatar desigualdades sociais. A família na sua diversidade e comunidade de afetos
tem um papel preponderante como parceira competente a envolver nos projetos educativos.
Deve-se pois propor ao cidadão o debate, devolvendo felicidade aos alunos e às escolas na premissa de que o direito à educação é um investimento social que tem um retorno significativo.
Citando Isaac Bashevis Singer (Prémio Nobel), “O nosso conhecimento é uma pequena ilha no enorme oceano do desconhecimento."

Agradeço à Universidade Lusófona, em particular a Isabel Sanches e a toda a equipa que tornou possível este seminário, por terem contribuído para acrescentar mais um pouco de sabedoria e poder de reflexão à minha ilha!
Elvira Cristina Silva

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Os livros que se seguem apresentam as minhas opiniões sobre os mesmos. Exclusivamente o meu "ponto de vista". EC

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