sexta-feira, 2 de abril de 2010

Dia Mundial da Consciencialização sobre o Autismo

Casos menos severos de autismo são preocupantes

João, com 12 anos, estava sempre alheado nas aulas, nunca olhava os professores nos olhos, mostrava-se indiferente às ordens que estes lhe davam e até os empurrava, caso eles se interpusessem entre si e algo que quisesse ver.
Na escola foi classificado como "perigoso" e aos processos disciplinares seguiu-se a proposta de suspensão. Mas, se ela se tivesse concretizado, não serviria de nada, porque ele não entenderia o castigo. João era - e é - autista e uma entre muitas crianças que tardam a ser diagnosticadas e que, em vez de apoiadas e protegidas, são apontadas como mal-educadas e rejeitadas em sociedade.
O nome é falso, mas o caso é real e ilustra uma das preocupações que os especialistas consideram que têm de ser realçadas hoje, Dia Mundial da Consciencialização do Autismo. "Nos casos graves, o diagnóstico é precoce e os doentes são protegidos e apoiados. São as crianças com perturbações menos severas do espectro do autismo que, tal como as famílias, passam por situações mais complicadas. Todos exigem à criança um comportamento normal, quando ela não o pode ter - apesar de o diagnóstico não estar feito, ela não é mal-educada, é autista, nunca será como as outras", alerta Guiomar Oliveira, pediatra.


Coordenadora do único estudo de âmbito nacional sobre a prevalência do autismo - que envolveu 300 mil crianças com idades entre os 7 e os 9 anos -, Guiomar Oliveira baseia-se na sua experiência, mas também nos dados obtidos durante a investigação. O estudo, feito entre 1999 e 2000, permitiu concluir que uma em cada mil crianças tinha alguma perturbação do espectro do autismo; e ainda que, destas, apenas um terço tinha sido objecto de um diagnóstico correcto, apesar de quase todas estarem a ser acompanhas por problemas de comportamento e de aprendizagem, entre outros.


A dificuldade de diagnóstico é facilmente explicável: não há traços físicos associados à patologia e o grau de severidade (no que respeita aos défices na comunicação, na relação com os outros e na capacidade de imaginação) é muito variável.

Crianças com autismo num grau muito severo podem nunca chegar a falar e ficar indiferentes aos esforços de terceiros no sentido de estabelecerem com elas uma relação; crianças com a síndrome de Asperger, por exemplo, podem ter uma capacidade cognitiva e uma linguagem normais, que disfarçam outros sintomas da perturbação, como a incapacidade de perceber uma metáfora ou uma ironia e de expressarem emoções ou de entenderem as dos outros.

Há outra característica da doença que é especialmente cruel para os pais: um autista não entende as regras sociais e não tem mecanismos de autocensura - diz e faz o que lhe passa pela cabeça, no momento. E não é raro que, perante um comentário desagradável ou uma birra da criança, os pais sejam criticados por, supostamente, não a saberem educar.

Há quem pense que os casos de autismo têm aumentado. Guiomar Oliveira não concorda. Acredita que aumentou, sim, a quantidade de casos diagnosticados, muito graças ao progresso feito nos últimos anos no que respeita à sensibilização de educadores e de professores e à formação de médicos. "Chegam-nos, para estudo e diagnóstico, muitas crianças com 18 meses e dois anos; mas também muitos jovens com, 12, 13, 14 anos..."

Apesar desse aumento, quantos autistas andarão, desprotegidos, entre nós? É o que preocupa os especialistas. Isabel Cottinelli, presidente da Federação Portuguesa de Autismo (FPA), anuncia a aposta, ainda este ano, numa grande acção de divulgação dos sinais de alerta, dirigida às famílias (http://www.appda-norte.org.pt). Rita Soares, psicóloga daquela organização, não teme alarmismos: "Mesmo em caso de erro de diagnóstico, a uma criança com outra perturbação menos grave não faz mal ser integrada num programa de estimulação e de reforço de competências sociais; já para um autista, crescer sem "armas" para sobreviver em sociedade é muito complicado", frisa.

As armas, neste caso, são regras sociais. "João", cujo diagnóstico foi feito aos 13 anos, está a aprender, por exemplo, a ir ao supermercado - a aprender a pegar no produto, a esperar na fila, a entregar o dinheiro, a aguardar pelo troco e, entre outras coisas, a não comentar a obesidade ou os sinais de velhice da senhora que o está a atender.

À sociedade, alerta Guiomar Oliveira, cabe apoiar e proteger a criança. Mais propriamente, se o "João" tem de aprender a não empurrar os professores para chegar onde quer; aqueles também têm de agir tendo em conta que aquela é uma criança especial. O que significa, diz a pediatra, evitar situações de conflito: "Às vezes depende de muito pouco: se puderem evitar colocar-se entre a criança autista e um objecto que ela está a observar atentamente, o que custa fazê-lo?
02.04.2010 por Graça Barbosa Ribeiro em:
www.publico.pt

3 comentários:

Mina disse...

Felizmente que o caminho se vai fazendo, mas hoje não vi para além dos blogues a dita consciencialização, eu andei a passear com o meu filho , que tem sindrome de Asperger e coloquei um lenço azul na cabeça.
Quem me via acharia que tinha alguma doença rara para esconder o cabelo, porque nos meios de comunicação social nem ouvi falar em autismo quanto mais em sensibilização ou azul...
Bjos
Votos de Boa Pàscoa

EC disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
EC disse...

Olá Mina
Compreendo o seu comentário. Para mim a concencialização é todos os dias. O facto de ter feito o post foi no sentido da pertinência do artigo, mais do que a data em si. As datas comemorativas deveriam ser para fazer uma balanço do que se tem feito e o que há a melhorar! Infelizmente nem sempre é assim.
Acredito também que o caminho se vai percorrendo...Uma boa Páscoa também para si e para o seu filho.
Um abraço
Elvira

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Os livros que se seguem apresentam as minhas opiniões sobre os mesmos. Exclusivamente o meu "ponto de vista". EC

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